• Dani Serranú

Por que precisamos da Women Game Jam?

A maior game jam que tem como público mulheres, trans e não binários do Brasil está se espalhando para a América Latina, mas que diferença isso faz pra você?


O QUE É?


Caso você não saiba o que é uma Game Jam são pequenos eventos com período de tempo definido como 48h, 5 dias, uma semana, onde o objetivo dos participantes é criar um jogo completamente do zero seguindo as orientações dos organizadores (temas, diversificadores etc).


Esses eventos são sensacionais para desenvolver suas skills de desenvolvimento de jogos (sejam elas artes, programação, áudio) e conhecer novas pessoas da área que podem se tornar futuros parceiros de trabalhos ou clientes.


A Women Game Jam é uma jam que se encaixa nesse padrão das 48h com o objetivo de criar um jogo do zero, mas ela tem uma pequena diferença: é exclusiva para o público feminino, trans e não binário.


Exclusividade é uma palavra muito forte e muitos podem pensar que esse fator é negativo para a jam, mas a meta é criar um ambiente com mais incentivo, visibilidade e network para esse grupo que quer trabalhar na indústria de jogos.


MAS A EXCLUSIVIDADE É NECESSÁRIA?


Sim, é necessária. Eu vejo muitas pessoas não apoiando esses eventos justamente por não achar necessário essa exclusividade que, para elas, é considerado quase uma segregação.


A Women Game Jam depende dessa exclusividade para oferecer um ambiente mais seguro e confortável para quem se sente intimidado em ambientes do dia a dia do desenvolvimento de jogos. O objetivo é mostrar para o público feminino, trans e não-binário que qualquer um pode fazer jogos e que esse ambiente está sim preparado e livre de qualquer preconceito que se possa encontrar no ambiente diário dos games.


Acontece que, para quem é mulher, trans e não-binário, as coisas na indústrias podem e tendem a ser um pouco mais complicadas. O velho preconceito de "menina não pode jogar (ou fazer) videogame", homofobia de diferentes níveis e o clássico "se você nasceu desse jeito tem que viver com isso" acabam afastando muita gente desse meio.


É frustrante, humilhante e doloroso. É por isso que criar um ambiente onde essas minorias na indústrias podem não só se encontrar, mas também desenvolver juntas um jogo do zero, cria uma nova esperança para essas pessoas que estão acostumadas a ver um mercado de jogos dominados pelo público masculino.


Também vale lembrar que grande parte dos pré-eventos da Women Game Jam aqui em São Paulo foram abertos para o público masculino, o que foi bem legal para que pudessemos trazer essa conversa não só para um público fechado, mas pra todo mundo!


PRECISAMOS FALAR SOBRE KEVIN!


Okay, o título foi uma piada com referência a um filme onde os pais precisam falar sobre o elefante na sala, que é seu filho que pode ser ou não um psicopata (se você não viu ainda, veja! Aproveita também e me perdoa pela piada ruim haha).


Com isso eu quero dizer que precisamos falar sobre esses pontos que a maioria das pessoas não quer falar! A indústria de jogos é tóxica. Não só na parte de desenvolvimento, mas também envolve uma massa enorme de jogadores.


Você sabe disso, não precisa ser mulher ou minoria para admitir que o ambiente de jogos não é tão legal quanto queremos acreditar! Em qualquer jogo a toxicidade se aproveita de qualquer mínima diferença do "normal" para ofender pessoas anonimamente.


Gordo, mulher, homossexual, negro, deficiente, pobre, diferente... Qualquer coisa é usada contra você com o objetivo de te desestimular a jogar. Algumas pessoas aguentam isso, por mais doloroso que seja, mas muitas não.


É muito comum que pessoas que se encaixam no público feminino, trans e não-binário desista desse mercado porque as ofensas contantes são demais para aguentar. Isso cria um ambiente que é quase dominado pelo público masculino no desenvolvimento. Pois se você não gosta de jogar jogos, não tem porque desenvolvê-los.


Todo esse ambiente já bem nocivo é ainda pior se considerarmos a quantidade extrema de abusos físicos e mentais que o público feminino, trans e não-binário sofre na indústria de desenvolvimento de jogos. Inclusive a IGN escreveu um artigo muito completo sobre esse assunto chamado Women in Video Game Development in 2017: A Snapshot, caso você queira dados ainda mais completos contando com entrevistas e pesquisas dá uma lida nele!


Não me leve a mal, esses abusos acontecem em diferentes níveis e em uma base diária com todas as pessoas, homens cis, homossexuais, bissexuais, mulheres... Enfim, todos. Eu não estou querendo excluir um público ao dar visibilidade a outro, por favor, não pense isso! O que eu estou querendo trazer nessa conversa é que os dados são maiores com essas "minorias" e isso acontece muitas vezes pelo sentimento de outsider que todas as mulheres, trans e não-binários já tiverem no meio de jogos. Como se eles não pudessem fazer isso, só porque nasceram assim.


Atualmente com as vítimas de abuso se sentindo cada vez mais confortáveis para trazer a público escândalos de assédio em grandes empresas de jogos, é ainda mais importante que tenhamos essa conversa, que não deixamos esse assunto simplesmente se perder nas notícias.


REPRESENTATIVIDADE É IMPORTANTE!


Como eu disse, a maioria do público de desenvolvimento de jogos continua sendo masculino o que leva a um padrão que as empresas vem seguindo desde sempre: protagonistas masculinos fortes, confiantes, inteligentes e que conseguem a garota no final.


Esse clichê é tão manjado que hoje em dia é difícil de ser quebrado. As próprias empresas de video games que tem como objetivo trazer algo diferente para seus jogos são barrados pelos jogadores que muitas vezes as acusam de "só estar fazendo pauta pra inclusão".


Se você realmente pensa dessa maneira, eu te convido a imaginar uma coisa comigo. Lembra de você quando criança jogando Doom, controlando aquele baita daquele protagonista, o famoso Doomguy. Ninguém sabe seu nome, sua história, mas não importa. Você está assassinando demônios como se não houvesse amanhã e minha nossa, isso é bom demais!


Uma parte de você, só de imaginar isso, já relembrou a sensação do jogo. Quando você era pequeno isso era maneiro porque você tinha a experiência de estar naquele mundo, matando aqueles monstros. Por algum tempo, você era o Doomguy! E isso era sensacional! Uma parte do seu eu criança quer ser o Doomguy, quer viver essa aventura um dia!


Agora imagina que o Doomguy não existe mais. Esse personagem que você admira não existe mais, não existe Link do Legend of Zelda, não existe Ryu do Street Fighter, não existe Chris Redfield do Resident Evil. Não existe mais personagens como você, que se parecem com você ou com qualidades que você almeja ter e que pode alcançar quando crescer.


Sem músculos, sem sex appeal, sem golpes de combates maneiros ou armas divertidas. De repente esses jogos ficaram não tão legais... De repente você sente falta de alguém como você no jogo, alguém que te represente.


Esse sentimento é como muitas pessoas que não se sentem representadas pelo clássico personagem branco, cis, forte e foda se sentem. Elas querem ver algo diferente, elas querem ver alguém como elas na tela.


E isso não se aplica só a mulheres, trans e não-binários viu! Isso se aplica a todo mundo! Brothers: A Tale of Two Sons quebra esse clichê mostrando dois irmãos que tem como laço o amor entre eles e o cuidado. Que tem como objetivo do jogo, salvar sua família com uma jogabilidade que não envolve lutas megalomaníacas com grandes chefes, mas sim a esperteza e o laço entre eles.


Mas aí você fala, ah mas e Tomb Raider? E Bayonetta? E tantos outros jogos que tem personagens femininas maneiras? O que eu te respondo é que isso é muito legal, não é? Ver diversidade? Dá um sentimento de ar fresco. Mas acontece que muitos desses jogos tem personagens que ou possuem características que se esperam de homens (como o badass invencível e a dificuldade de conexão de Ridley Scott de Alien) ou são hipersexualizadas (como o caso da Lara Croft de Tomb Raider ou boa parte das personagens femininas em Street Fighter e Mortal Kombat).


Ainda que as empresas estejam tentando melhorar nesse ponto, como o incrível trabalho que a Square Enix fez com toda a nova trilogia de Tomb Raider apresentando uma personagem muito mais complexa e com roupas que faziam mais sentindo para sua área de exploração, nós precisamos tomar consciência dessas decisões e questioná-las. As empresas querem nos agradar, elas precisam disso para vender jogos.


Diversidade é algo muito legal de ver em qualquer jogo, dá um sentimento de que algo realmente novo e criativo está sendo apresentado ali. E a representatividade é muito importante para públicos que não se sente representados como mulheres, trans, negros, gordos, qualquer um que é diferente do considerado "padrão protagonista". É por isso que precisamos falar sobre Kevin (okay, parei!).


TRAZER UMA NOVA MENTALIDADE PARA UMA VELHA INDÚSTRIA


Como eu já pontuei, diversidade e representatividade é um bem que todos nós podemos usurfruir, mesmo que você não se sinta tão interessado nesse assunto. Com as empresas indie crescendo cada dia mais e ganhando popularidade (e dinheiro) com jogos cada vez mais inovadores, faz todo sentido trazer mais diversidade pra esse mercado.


Pensa bem, o que você gosta nos indies que os AAA não costumam ter? Novas histórias, novos protagonistas, novas mecânicas. O que você gosta é pensar que você pode ser uma menina subindo uma montanha e lidar com ansiedade, depressão e aceitação enquanto curte as gameplays rápidas e agéis de Celeste.


O que você gosta é saber que mesmo estando em um deserto e se sentindo perdido no começo você pode encontrar novos caminhos através da música que vão te guiar a uma conexão com si mesmo e com outras pessoas muito maior do que você esperava que um jogo podia fazer como em Journey.


O que você gosta é ver o diferente, o inovador e ainda assim se divertir com isso. É por isso, que nós precisamos da Women Game Jam, precisamos de novas mentalidades e ideias que vão trazer uma visão diferente para a tela.


Uma visão que pode ser sobre dor, depressão, preconceito, identidade... Essas inovações vem da experiência que cada desenvolvedor teve em sua vida, os jogos são sim beseados em temáticas reais, por mais fantástico que pareçam.


É por isso que nós precisamos dessas pessoas para trazer o novo e ainda mais do que isso. Precisamos de você também (desenvolvedor, artista, sound designer) para trazer essas novas ideias em pauta e criar jogos cada vez mais magníficos e marcantes.


Ah! E pra trazer novos jogos de personagens fodas com armas legais que atiram em demônios porque isso também é bem legal!


HORA DA AÇÃO!


Agora a hora mais legal, hora da aventura... opa, ação! Pra se inscrever e participar da Women Game Jam que vai acontecer esse fim de semana do dia 13 às 18h ao dia 15 às 19h é só se inscrever aqui.


Caso você não possa participar mas ainda queira ajudar, é só falar com a organização da Women Game Jam na página deles no Facebook e perguntar como sua ajuda pode ser útil durante ou pós evento! Ah importante, também vale muito seguir xs participantes nas redes sociais e dar aquele apoio legal e lindo pra manter todxs motivadxs!


Se você vai estar lá esse fim de semana não deixa de me mandar uma mensagem inbox no instagram pra gente se encontrar lá e trocar uma ideia! É isso aí espero ver todxs lá!



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