• Dani Serranú

Infinity Travel: A prova de que planejar uma música dá certo!


Esse ano rolou o Glitch Mundo, um evento que abriu um desafio para compositores de todo o Brasil! Todos nós fomos convidados a fazer uma música baseada em um dos 3 temas propostos pelo festival. Ao escolher o meu, eu pude reviver uma experiência que eu não tinha fazia tempo: planejar e organizar minha música antes mesmo de saber como ela ia soar!


A história toda começou quando eu fui comprar sorvete com o meu namorado. Apesar do dia frio, nós estávamos morrendo de vontade de comprar um sorvete artesanal então corremos pra sorveteria no meio da tarde. No caminho eu andei pensando em algumas coisas que eu podia fazer para ganhar mais experiência na minha área, uma delas era participar do desafio do Glitch Mundo, onde nossas músicas criadas para o evento seriam tocadas nas festas e eventos do festival que aconteceria em São Paulo.

Nessa época, o Thiago Adamo estava ajudando na parte de organização do evento e ele tinha acabado de informar que o prazo para a entrega das músicas tinha ganhado mais dois dias. Não era muito, mas em dois dias dá pra fazer muita música, ou uma música muito boa. Além disso, eu já tinha trabalhado com prazos menores.

Nesse dia, voltando pra casa, eu comecei a pensar sobre como faria a música. Entre meus cursos de música, faculdade e vida pessoal esse desafio não parecia tanto uma prioridade, mas eu sabia que muitas vezes me esforçar para trabalhar com prazos dificeis tinha sido essencial para o meu crescimento como música.

Foi então que ali na rua mesmo eu escolhi o tema que queria trabalhar: Viagem no tempo cíclica para um shooter 2D. Perguntei então pro meu namorado "viagem no tempo cíclica é tipo um paradoxo que sempre cai no mesmo lugar?" ele parou de comer sorvete e me olhou um pouco distraído "sei la, acho que sim". Foi então que a ideia me atingiu como se ela tivesse ali há dias: "e se eu fizer uma música onde o elemento principal é um arpejo e ele dita a música para ela terminar onde começou?". Ele achou uma boa e eu também. Foi então que cheguei em casa e trabalhei em um dos brainstorms mais rápidos que eu já tive.


A primeira coisa que eu queria definir na minha música era o uso dos arpejos, já que todo o resto seria construido a partir deles. Eu acabei criando uma cadência bem simples que estaria dentro da escala de Lá Maior. Decidi que no começo, os arpejos começariam devagar e apareceriam sozinhos, para logo no quinto compasso dobrarem a velocidade, se tornando cada vez mais frenéticos. Eu queria que o ouvinte se sentisse na preparação para algo e logo depois fosse se perdendo aos poucos nos muitos elementos da música, como uma pessoa que encara uma máquina do tempo e logo depois mergulha de cabeça nessa viagem temporal.


Infinity Travel é basicamente dividida em duas partes, sendo que há uma conexão entre elas. A primeira parte é a do arpejo ascendente que tem como objetivo apresentar o ouvinte a todos os conceitos da música. Já a segunda, entra o arpejo descendente, onde os mesmo acordes com arpejos descendentes tem o objetivo de criar um ambiente similar ao que já foi apresentado mas ao mesmo tempo com suas próprias singularidades.

Sabe o filme De Volta Para o Futuro quando o protagonista volta no passado e conhece os pais só que eles estão novos e agem diferente, porque ainda não são pais? São os mesmos personagens apresentados de forma diferente, de uma visão diferente. Essa é exatamente a mesma sensação que eu queria passar nessa segunda parte.


Por último, eu também criei uma conexão de arpejo que ligasse essas duas partes, quase como se fosse nosso personagem principal, entrando em uma máquina do tempo vendo todas aquelas luzes e flashes passando por ele enquanto ele faz um salto temporal.

Nessa parte os arpejos param, já que a música está fazendo uma transição, e o elemento principal é apenas uma melodia curtinha bem rápida e em stacatto, ou seja, as notas são curtas e não são ligadas entre si. O objetivo é que esses "saltos de notas" dêem a impressão de estar "passando" pelo ouvinte, preparando ele para esse novo mundo não tão novo. Cada compasso, como o que está aqui embaixo, se repete quatro vezes, criando essa conexão entre as duas partes da música.


A última parte da música retorna para a parte A (dos arpejos ascendentes), ao mesmo tempo que re-apresenta diferentes melodias e dinâmicas que surgiram ao longo da música. Essa parte é o "voltar pra casa" do nosso protagonista, ele viveu todas suas aventuras no passado e agora está voltando de uma maneira quase caótica para seu tempo atual. Como em toda história, algo deu errado em sua jornada e ele conseguiu escapar por pouco, por isso eu quis colocar diferentes elementos, como se fosse uma briga entre os instrumentos para retornar ao presente.

Por fim a música termina como começou, o que era meu objetivo desde o começo. Depois de todo o caos e aventura, o arpejo diminui de velocidade e volta ao primeiro compasso da música, de forma que o começo e o final são iguais, finalizando com meio compasso da melodia principal: o pequeno conhecimento que nosso personagem principal trouxe para casa.


A escolha dos timbres de cada instrumento é sempre muito importante e é uma das primeiras coisas que eu faço em meus projetos. A não ser que eu esteja em uma vibe de inspiração muito forte, onde eu componho tudo em vários samples de piano separados e depois vou dando vida a cada parte, eu escolho meus timbres logo no começo.

Como o objetivo era um shooter 2D e viagem no tempo, eu queria algo que fosse forte e pesado, synths que dessem uma personalidade forte para a música. Eu componho no FL Studio 20, caso você esteja se perguntando, e nessa busca pelos timbres perfeitos eu acabei trombando com um Brass do Sytrus (nativo do FL Studio) que era exatamente o que eu estava procurando.

Além disso, para passar esse ar um pouco mais misterioso e confuso, eu usei diferentes tipos de sinos, desde os mais agudos até alguns mais graves, que me ajudaram a passar esse sentimento de preenchimento e delicadeza. Vale lembrar que eu dei prioridade a instrumentos que possuísem bastante reverb para preencher a música e completei colocando ainda mais reverb neles!

Uma das coisas que eu mais gostei no resultado final, foi que, por escolher instrumentos de tessituras diferentes, como sinos agudinhos e brasses graves, eu acabei criando mais espaço na minha música para misturar as coisas sem que tudo ficasse confuso. A última parte, onde tocam muitos elementos ao mesmo tempo, só foi possível por causa disso.

Quanto a melodia, eu criei ela totalmente baseada nos arpejos principais. O objetivo era toda a música seguir o ritmo ditado pelos arpejos, e eu fiz questão da melodia também seguir esse esquema. As notas são bem rápidas e quase não tem pausa, reforçando o pacing do shooter 2D e da ideia de aventura de viagem no tempo. Eu queria que as coisas passassem rapidamente pelo o ouvinte durante a música quase de uma maneira confusa.

Em algumas partes da melodia principal, que é feita na maior parte por sininhos delicados, eu também fiz questão de criar pequenos grupos de arpejos, como você poder ver aqui embaixo. Acabei achando que essa foi uma boa forma de ir preparando o ouvinte para a mudança entre a parte A e B, ao mesmo tempo que cria esse movimento de looping que sobe e desce na música.


Outra coisa que eu quis priorizar é que todas as melodias se parecem bastante, principalmente as principais da parte A e da parte B. Isso é porque eu quis que ela soassem parecidas, mas que tivesse esse fator "peraí eu já conheço isso, mas ta um pouco diferente". É a mesma história que eu expliquei lá em cima: os mesmos personagens, apresentados de maneira diferente, de outro ângulo. Achei que isso fosse criar um elemento interessante para a música e que complementaria minha ideia de uma música meio storytelling.

Eu falo um pouquinho mais do meu processo compositivo e intenções nesse vídeo aqui embaixo, tem até trechos da música para você que ainda não escutou Infinity Travel!



Mas aí agora você diz: "COMO ASSIM? ISSO FOI MUITA COISA! COMO VOCÊ PLANEJOU TUDO ISSO?". A verdade é que eu não planejei. Calma calma! Antes de você me chamar de fraude e dizer que esse artigo foi clickbait vou te dizer a magia do negócio.

Eu realmente criei a música planejando-a. Toda a parte dos arpejos, timbres, intenção e storytelling já estavam lá desde o começo. Algumas outras coisas foram surgindo quase sem querer enquanto eu compunha, como utilizar arpejos entre a melodia, ou criar melodias que se parecessem entre as partes A e B. Na verdade, até eu estar aqui escrevendo esse artigo pra você ler, eu não tinha consciência de muitas das minhas escolhas artísticas e em como elas fizeram tanto sentido lógico. Às vezes a gente só compõe sem pensar, e não tem nada de errado isso.

Mas o que eu gostaria de mostrar aqui pra você, foi que essas decisões lógicas de storytelling e timbres só surgiram porque eu decidi planejar a música desde o começo. Eu já havia criado uma coisa com sentido lógico e já sabia que objetivo eu queria alcançar com ela, dessa maneira todas as escolhas inconscientes que meu cérebro criou durante esse processo seguiram esse sentido lógico também.

Por isso que planejar o objetivo da sua música é muito importante em grande parte das composições. Às vezes, quando não fazemos esse exercício, o que acontece é que a música se perde e vira outra coisa. As melodias já não se encaixam mais e você nem sabe mais para o que você estava criando-a.

Algumas pessoas acreditam que esse planejamento pode limitar sua criatividade já que você está colocando metas e objetivos para o que quer alcançar em cada parte. Eu discordo completamente. Estamos criando música a partir de ideias que temos em nossa cabeça, se você não seguir um pensamento lógico fica muito fácil de se perder.

Mas não vai pensando que eu planejo metodicamente todas as minhas músicas ein! Deve existir um equílibrio entre as duas partes (tudo em excesso na vida faz mal né!). Mas quando eu passo por um bloqueio criativo ou quando o trabalho me parece dificil, sempre me ajuda planejar onde eu quero chegar e que elementos eu vou usar para chegar nesse lugar. Não me leve a mal nesse quesito: planeje quando tiver que planejar e dê a louca quanto tiver que dar a louca!



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