• Dani Serranú

Como foi trabalhar na música de Altero

Atualizado: 12 de Nov de 2018


Como foi criar uma música para uma arte tocante e um pouco das referências que formaram meu estilo


Alguns meses atrás, eu tive a oportunidade de participar de um novo concurso da Game Audio Academy: feito em parceria com a ElectronicMotion Games, o foco era o jogo Altero, que possui novas mecânicas de gameplay e uma arte de tirar o fôlego.

Altero não é um jogo comum, o visual impressiona. Com uma história cativante de morte e redenção, o jogo utiliza de cenas escuras com fontes de brilho bem colocadas para criar esse ambiente fantasioso e obscuro.

Para mim, uma oportunidade tão grande era algo fantástico. Com referências de trilha como a de Ori and the Blind Forest e Child of Light (dois dos meus jogos preferidos, diga-se de passagem) esse concurso parecia perfeito.

A primeira vez que eu compus algo, mesmo uma melodia simples, foi em meados de 2017, ano passado, então o que não me faltava era insegurança. Como fazer uma música que transmitisse os sentimentos que essa arte me causava? Como alcançar o que Gareth Coker alcançou ao criar a música de Ori, que transmite a beleza, o perigo e a esperança de controlar um personagem que está em comunhão com uma floresta encantada que está morrendo?


Para todo artista é muito complicado começar um trabalho. Depois que você já está trabalhando em um projeto, tudo parece fluir mais naturalmente. Por outro lado, começar, e ainda mais do que isso, começar uma ideia que vai ser efetiva, parece ser o passo mais dificil. Para mim, não foi diferente. Eu sou pianista, então tenho o costume de fazer um rascunho mental das minhas músicas no piano, assim eu me sinto mais confortável sobre que harmonia funciona ou não na música. Eu sabia que eu queria uma música com instrumentos orquestrais, apesar de nunca ter trabalhado com eles, então eu tentei criar separademente vários temas musicais que se encaixassem com o sentimento do jogo e o que eu queria transmitir. Uma escala menor para melancolia, dissonâncias, para perigo e mistério, que se resolviam em consonâncias perfeitas, para realçar a inocência do personagem principal, uma alma perdida em um mundo que ela não entendia.

Após alguns dias de tentativas, finalmente encontrei a melodia que eu queria: algo que passasse o sentimento de esperança, tristeza e fantasia. Depois de decidir todos os temas e onde eu os queria na música, eu comecei a trabalhar no arranjo instrumental. Inserindo piano e cordas eu pude dar a minha música a emoção que eu tinha em mente. Esse trabalho de arranjo foi bem complicado no começo, os temas pareciam não se encaixar e eu não fazia ideia de como se criava as conexões para uma passagem mais suave entre os intrumentos. Além disso, eu usava um notebook de 4gb de RAM que não aguentava os vários plugins orquestrais que eu havia posto no projeto, o que fazia com que o programa travasse e fechasse por falta de memória. Foi um pouco trabalhoso corrigir todos os erros que minha inexperiência havia causado, mas após alguns dias fazendo e refazendo arranjos e de muitas freeze tracks (para liberar espaço da memória que o projeto usava), eu consegui terminar minha música a tempo da deadline do concurso. E o ganho não foi só esse: eu criei algo de que tenho muito orgulho, além de ter passado por cima das minhas inseguranças quanto a minha própria capacidade musical. Eu cresci com essa experiência e posso dizer com certeza de que ela me fez uma musicista e compositora melhor.


No final, não fui eu quem ganhei o concurso, foram outros dois compositores que são alunos da Game Audio Academy: Bruno Mendes e Gabriel Medeiros. E foi uma vitória muito bem merecida. As músicas deles tem uma qualidade impecável e emitem perfeitamente o clima que o jogo se propõe a passar. Cada parte da melodia e arranjo expressam fantasia, toques de tristeza, esperança e mistério. Foi uma experiência muito legal poder acompanhar não só as músicas ganhadoras, mas todas as músicas de quem participou do concurso. É incrivel como um só tema pode criar tantas obras tão peculiares em sua singularidade. E mais incrível do que isso, só mesmo os resultados. Eu apoio fortemente, de que se você tem o interesse de saber mais sobre esse concurso, que escute a playlist no soundcloud da Game Audio Academy, há obras verdadeiramente incríveis lá.

O que eu tiro dessa experiência é crescimento. Pode parecer clichê, mas nesse caso, a jornada foi muito mais importante que o final. Se eu tivesse me subjulgado pelas minhas incertezas e inseguranças, eu nunca saberia o quão longe eu poderia ter chego. Eu nunca teria criado uma música que me encantou e me encanta até hoje, pelas escolhas musicais que eu mesma fiz sem perceber. Eu ainda tenho muito o que melhorar, nela e em minha trajetória como compositora, mas o que eu aprendi com isso, é não me fechar em um lugar de segurança só porque eu tenho medo de falhar em criar algo bom. Hoje eu começo um pouco a entender as escolhas que eu devo fazer para me tornar uma compositora melhor.

Para quem se interessar em conferir como ficou o resultado final, vou deixar um vídeo abaixo com a música tema da cutscene: Tragic Birth.


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